O filme, o inesperado e a frustração

Atualizado: Mai 29


ps:. todas as fotos deste post, foram de um dos filmes citados, da revelação cagada.


O filme:


A transição do digital pro analógico, resultou em mudanças extremas na minha vida e no meu trabalho ( e eu não to falando do óbvio nas diferenças técnicas envolvidas

Eu necessitava ter controle de tudo (ou a maioria das coisas). Tive que desenvolver um mecanismo de auto defesa, que eu precisava usava pra lidar um pouco melhor com a ansiedade e pânico que me acompanhavam lado a lado.

Tentava deixar no controle a maioria das coisas de forma pré determinada: determinar o local, o horário pra que eu imaginasse a condição de luz resultante e suas possíveis variações, bateria extra, checar 109281 vezes se o cartão de memória tava ali (e depois disso checar de novo), levar outro cartão extra, ter plano a.b.c caso tudo desse errado, etc, etc, etc (que eu nem me lembro mais). Essa era uma solução que eu tinha encontrado, até começar a fotografia com filme.

Basicamente minha vida se resumiu em A.F (Antes do Filme) e D.F (Depois do Filme)



O inesperado:


Da minha primeira experiência com filme em diante, o inesperado aconteceu de forma DESASTROSA. (e bora citar as derrotas)

Experiência: Eu tinha uma 35mm que nem sabia se funcionava (que ganhei como herança de uma grande amiga que tinha falecido), quem dirá filme.

Por coincidência no exato momento que eu queria muito começar com o analógico, ganhei uma Lomozinha Golden Half com filme, da Milena que me deu como incentivo pra iniciar essa jornada (A Golden Half, faz 2 fotos num frame só, ou seja num filme de 36 poses, você tem como resultado 72 fotos). 


Resultado: Demorei um bocaaaado pra pensar em todas as fotos e momentos pessoais que eu queria registrar, cerca de uns dois meses e meio. Pois bem, levei pra revelar e CONSEGUIRAM CAGAR COM TUDO. EU PRATICAMENTE PERDI TODOS (ou a maioria) de todos os registros e momentos que tive. Deixaram marca de dedo em todos os negativos digitalizaram cropado errado TODAS as fotos. Eu fiquei hiper mega triste.



Experiência: Fui testar minha camerazinha 35mm que tava lá guardada. Penei pra achar bateria mas lá fomos nós. Tava funcionando. Procurei filme que nem uma doida e encontrei um iso 100.

Era minha primeira vez fotografando alguém com analógica.

Tinha combinado um horário x, com uma modelo x num lugar x.

Resultado: Ela me liga dizendo que o lugar não tava disponível. Procuramos outro lugar e já tinha passado 1 hora e pouco do horário combinado.

Achamos outro local e o combinado era as 14, ela chegou lá 16:45 e eu tava já me cagandooooo de medo, porque iria escurecer muito rápido e eu só tinha um filme iso 100.

Não bastasse toda presssão psicológica, e total falta de controle, minha câmera travava de 5 em 5 min. Perdi várias fotos depois disso, aquelas principalmente que eu tinha ficado super ansiosa pra ver que mentalmente, gravei na cabeça.



Experiência: Cansada de cagada de laboratório, pedi pra um amigo me ensinar a revelar. Providenciei tudo que era necessário pra revelar filme em pb, mas como disléxica e cheia do TDAH que sou, pedi pra um amigo me ensinar.


Resultado: Quando o Mets foi me ensinar revelar eu falei eu pedi pra acompanhar o processo todo que eu ia anotar e gravar todas as informações e pedi pra que ele revelasse aquele filme pra mim.

Ele disse que não ia revelar, que eu ia prestar atenção e depois ia fazer todo o processo sozinha.

FIQUEI DESESPERADA e perguntei pra ele: E se não sair?  Ele respondeu: "Se não sair paciência, não saiu. Você tem que passar por isso e acredita, você vai passar um dia. E tá tudo bem disso acontecer”.

Eu consegui, saiu. Mas saiu mais subexposto do que eu imaginava, porque a medição de luz é diferente da digital.

Experiência x resultado: E tiveram muitas e INÚMERAS experiências depois disso.

A primeira vez que fotografei com médio formato, não conseguia puxar o filme pra bobina, depois de uma força tarefa com mais uma pessoa, coberta em cima, um tendéu de tensão pra deixar tudo escuro e não vazar luz a gente não sabia se tava puxando a película ou o papel que envolve o filme, conseguimos rasgar o filme.

Na coleta das fotos pra minha primeira exposição, minha máquina travou, perdi inúmeras fotos.

Fui revelar um filme de uma sessão que eu realizei que mentalmente era a melhor dos últimos tempos do meu pico de criatividade, além de ter fotografado com uma máquina de 1800 e bolinha e CAGUEI na revelação, manchou todo o filme e perdi a maioria das fotos.  Essa é a história do "filme da revelação cagada" (e que no final de tudo, as que sairam eu amei, mesmo com todos os d'EFEITOS). 

ENFIM!

Eu já não tinha controle da luz, do tempo, do resultado.


Frustração:


A frustração era diária, a adaptação necessária (como diriam, quem sobrevive não é quem vence ou perde, mas quem se adapta ou algum clichê do tipo, né non?) 


Eu aprendi com a fotografia analógica, que não posso e NÃO TENHO CONTROLE DE NADA e tá tudo bem. Posso ter resultado ou não, por mais meticulosa que eu seja ou o quão preparada esteja.

Fui obrigada a desapegar e isso ajudou minha qualidade de vida, equilibrou minha ansiedade e a necessidade de ter tudo pré programado. 

A falta de controle me trouxe uma nova visão, me posicionou de forma diferente em relação ao mundo, aceitando minha vulnerabilidade, a inconstância de tudo, aceitando meus erros e tirando o máximo de proveito das surpreendentes cagadas que acontecem (e sempre vão acontecer).


Eu me rendi então ao inesperado.

E no final, a vida também não é assim, imprevisível? 

Tô aqui pra aproveitar o melhor que puder dessas experiências, acertando ou não. ;)


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