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Retratos pós-morte

... e alguns mitos da fotografia na era vitoriana.


Muitos de vocês já devem ter lido alguma matéria sobre a fotografia na era vitoriana, normalmente acompanhada de uma galeria de fotos bastante sinistra. A estética em geral é sempre a mesma, pessoas sérias e totalmente imóveis, retratos de pessoas mortas "como se estivessem vivas", crianças com olhos brancos assustadores, pessoas sem cabeça e mais um absurdo de histórias bizarras e bem criativas envolvendo cada uma dessas imagens. 

"Não é preciso procurar muito, uma busca rápida e achamos uma infinidade de sites que afirmam mostrar fotografias dos anos 1800 de pessoas fotografadas após a morte. Esse gênero de fotografia é conhecido como fotografia post-mortem ou pós-morte, e é uma variedade muito buscada colecionadores. O que torna essas fotografias tão cobiçadas é que elas não são fotos científicas de cadáveres. Em vez disso, essas fotos seriam encenadas, com a pessoa colocada junto de seus objetos favoritos ou apoiado em uma cadeira - como se ainda estivessem vivos. A questão, é que muitas dessas chamadas fotografias post-mortem, são na verdade fotografias vitorianas regulares, com retratados que estavam bem vivos quando as fotos foram tiradas."


Acredito que pode ser importante situar esse período para compreender um pouco melhor o contexto, as técnicas e ferramentas disponíveis. A primeira fotografia reconhecida, foi feita em 1826, um pouco mais de uma década antes do início da era vitoriana. Usando uma câmera com uma placa de estanho coberta de betume da judeia, a imagem capturada pelo francês Joseph Niecéphore Niépce precisou 8 horas de exposição a luz solar, processo que ele chamou de "heliografia", gravura com a luz do Sol.

Mesmo que a fotografia pós-morte tenha começado a se tornar mais popular por volta de 1860, três décadas depois, ainda assim, a técnica de retratar pessoas era definitivamente uma novidade da vida moderna. Antes disso, era preciso desembolsar uma pequena fortuna para ter um retrato pintado por um artista, tornando esse tipo de prática inacessível para a maior parte da população. 


A Inglaterra vitoriana tinha uma relação única com a morte. Como os vitorianos morreriam muito jovens, rapidamente e de ferimentos ou infecções que a medicina moderna ajudou a abolir, eles inventaram rituais elaborados de luto para dar sentido à vida efêmera de seus entes queridos. Muitas das historias que acompanham as fotografias nesse estilo, são sobre famílias que perderam alguém de forma repentina e desejavam recriar o que não era mais possível. Encenando um ultimo abraço entre mãe e filho, ou uma criança com suas bonecas. 


A taxa de mortalidade infantil era significativamente alta nesse período, e as fotografias Post-Mortem eram geralmente as únicas fotografias que a família teria de uma criança. Os corpos eram geralmente colocados em uma posição natural como sentado em uma cadeira, no sofá, ou em uma cama, como se estivesse em sono profundo. Apesar da mórbida natureza das fotografias, esses retratos eram geralmente um trabalho simples para o fotógrafo daquela época. 


"Os falsos retratos pós-morte, sejam eles categorizados erroneamente ou intencionalmente rotulados para vendas lucrativas, se espalharam nos últimos anos pela Internet. Embora lamentável, também é compreensível: Existe claramente algo expressivo em uma cultura lúgubre, e não tão distante, que se envolve com a morte de uma maneira que não fazemos. É obvio que os vitorianos fotografaram sim seus entes queridos recentemente falecidos, mas na verdade, a maioria da pessoas que aparecem apoiadas em suportes nos retratos pós-mortem parecem quase vivas por uma razão muito mais simples: porque estão."

Jay Ruby, lider no campo de antropologia visual, escreveu em seu livro “Secure the Shadow: Death and Photography in America” lançado em 1995:

No estúdio fotográfico das décadas de 1840 a 1860, as pessoas eram colocadas em apoios - grampos que impediam qualquer movimento da cabeça. Os retratados eram instruídos a ficarem perfeitamente quietos, sem mesmo piscar. O resultado eram imagens de uma pessoa sem emoção facial, mantendo uma postura rígida e sem expressão.”


Suportes de posicionamento foram usados para ajudar os modelos vivos a ficarem imóveis durante as exposições mais longas da época, embora esse termo também seja não seja totalmente honesto. Em 1839, quando o daguerreótipo foi inventado, as exposições mais longas eram de um minuto e meio. Na década de 1850, eles eram de três a oito segundos. Exposições de meia hora ou mais eram costumeiramente usadas em paisagens, porém 1 segundo já é uma exposição prolongada o suficiente para permitir a desfocagem durante o movimento.



Existem vários relatos históricos que mencionam

a fotografia pós morte, inclusive como posar os amigos e familiares da pessoa falecida em torno da cabeceira da cama para uma ultima lembrança. Da mesma forma que também foram feitas fotografias de falecidos posados como vivos para fins de reconstituição. No livro “The Victorian Book of the Dead”, Chris Woodyard explica que, muitos cadáveres não foram identificados devido à desfiguração da morte. Fotógrafos forenses no final da Era Vitoriana tentavam restaurar corpos parcialmente decompostos para depois os fotografarem em pé ou sentados, com apoios específicos para esse fim (como no exemplo da foto ao lado).




Muitas fotografias chamadas de post-mortem são frequentemente classificadas nessa categoria porque algo no retrato parece "assustador". Posturas muito rígidas, olhos de aparência não natural ou sombras sinistras, são usados para classificar imagens dessa época. Entanto muitas dessas supostas evidências são, novamente, apenas evidências de um sistema fotográfico mais antigo. Qualquer micro movimento podia resultar em uma imagem borrada, os processos químicos anteriores faziam as cores parecerem diferentes, os olhos azuis podiam sair brancos, e a exposição podia deixar os membros escuros e o rosto claro.


Exitem muitos equívocos, fraudes e mitos envolvendo o início do desenvolvimento da fotografia durante a era vitoriana. Histórias macabras, fantasmagóricas ou bizarras, que na maioria das vezes são mais mirabolantes e intrigantes do que a imagem em si, frequentemente fruto de algum erro de exposição ou movimento do retratado no momento do disparo.


Outra crença comum é de que ninguém sorria para as fotos, provavelmente pelas longas exposições, mas como muitos retratos foram feitos com exposições de alguns poucos segundos, era possível sim, sorrir quando confortável em frente a câmera, mais ou menos como nos dias de hoje.


Para saber mais:


The Truth About Victorian Post-Mortem Photographs | por Rose Heichelbech


Clearing Up Some Myths About Victorian ‘Post-Mortem’ Photographs | por Sonya Vatomsky


Myths of Victorian Post-Mortem Photography | Por Edward Clint





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