“Tinta sobre Ela”


Meu processo de criação, geralmente é muito complexo e exaustivo, isso porque eu tento por pra fora de forma visceral, tudo que me assola a mente, o coração e os pensamentos. Então qualquer pressão nesse processo, dificulta ou até então impossibilita que eu produza. (a sensação é que eu tenho que correr e com uma corda amarrada nos pés, sabe?)


Pois então, nessa época (por volta de novembro de 2019, senão me engano) a Kodak entrou em contato comigo, sobre o lançamento de um novo filme, uma nova película que seria lançada mundialmente. O novo Ektachrome médio formato ISO 100, seria enviado pra alguns fotógrafos do mundo todo como Beta Testers e eu tinha sido escolhida no Brasil. IMAGINA O TAMANHO DA MINHA FUCKING FELICIDADE! YAY! Junto com toda a euforia dessa notícia, o prazo de 15 dias pra produzir o material (cerca de 9 rolos de filme) e enviar pra sede nos EUA pra serem revelados.


​A limitação: cor, tempo e espaço

Quando em 24 horas consegui segurar o coração, baixar a adrenalina e euforia a preocupação: E AGORAAAA? Eu realmente não sabia por onde começar.

Pontos de insegurança 

COR:

Pra mim a cor tem que transmitir uma mensagem, um propósito e uma intenção específica, caso contrário pra mim, é dispensável. A maioria das minhas fotos eu faço com filme 35mm e 90% das vezes em preto e branco. Okay. O filme que chegaria, era um filme colorido, de médio formato (btw minha Pentax 67 tava travando DIRETO mesmo tendo ido 3 vezes pra assistência técnica). O porte de uma câmera 35mm pra uma médio formato é bem diferente e isso dificulta a movimentação pra conseguir ângulos, perspectivas diferentes, baixas velocidades e causa uma exaustão física muito mais rápida, devida ao peso gigante que essa bichinha tem (e meu ombro é bem fodido).


​TEMPO E ESPAÇO:

Eu no momento tinha zero idéias (geralmente é normal e eu nunca tenho nada pronto)​ e POUQUÍSSIMO TEMPO PRA EXECUTAR também. Imagine agora O TAMANHO DA CORDA PRESA NO PÉ HAHAHAHA.

Tomei um fôlego, respirei fundo, me isolei e comecei ouvir minhas músicas e analisar exatamente o que EU ESTAVA SENTINDO. Me voltei pra dentro.

Me vieram muitos atordoantes sentimentos à tona. Muito sobre o que eu vivenciava ali naquele momento, morando em outra cidade, longe de casa, tendo uma percepção de tempo diferente do que eu tinha, estava em uma cidade grande que tinham muitos estímulos visuais por todo canto. Um mar de gente, de cores, de pressa. Eu tive que fazer um esforço enorme pra notar e perceber o que isso significava pra mim, já que muitas vezes, não conseguia me escutar.

Fui do PB ao EXAGERO de cor pra demonstrar isso, porque minha percepção era diferente. Enquanto muitos viam cores e estímulos, eu reparava nos detalhes, me sentia sozinha muitas vezes e via tudo em detalhes contrastantes de pb, de forma introspectiva no meu próprio mundo.

Isso me deu a ideia pra criar. Eu queria usar tinta e expressão corporal pra transmitir essa mensagem.


Deu tudo ERRADO!



Eu tinha ido pra Santos - SP. A ideia era ir pra praia ao amanhecer, cobrir a modelo com varias cores de tinta pra que em interação com a água, fosse tendo a tinta dissolvida e talvez depois, uns retratos com tinta e areia. 

DEU TUDO ERRADO. Choveu, choveu muito e nada disso tinha como ser feito.  Sem desespero. FOI HORA DO IMPROVISO E DE GERAR NOVAS IDÉIAS! Estávamos no quintal da casa, eu parei, respirei e comecei a olhar ABSOLUTAMENTE TUDO ao redor. Já que eu não conseguiria colocar a tinta sobre a Beatriz, e ter o resultado com a água, que tal tornar ela uma tela? COMO?

Vi uma mesa de vidro e pensei em colocar a Bia deitada e a mesa de vidro em cima, mas depois vi que não era possível porque o vidro era fumê e  MUITO ESCURO e a distância entre o vidro e ela ficaria inviável. Depois de muito bater a cabeça (MUITO MESMO E EU TO RINDO DE DESESPERO DE LEMBRAR) o marido da Ama (artista plástica) falou que o vidro do box do banheiro saia. ERA O VIDRO DO BOX MESMO! AHAHAHAH

Colocamos duas caixas de papelão paralelas e o vidro em cima com um espaço entre o chão que a Bia coubesse. A sensação quase que de claustrofobia, me ajudou a captar um sentimento que eu sentia e queria mostrar ali, a expressividade foi REAL e o sensação também! Depois de alguns dos retratos com o vidro e ela embaixo, usamos o mesmo vidro pintado e encostamos na Bia pra IMPRIMIR a tela nela, formando uma pintura corporal.

​E DEU TUDO CERTO!

Que baita experiência. Tive resultados que eu amei e amo até hoje e não publiquei quase nada ainda.

Isso me faz sempre lembrar que o ERRADO que as LIMITAÇÕES, são transformadores e muitas vezes criam resultados melhores do que a ideia antes planejada.

Compartilho com vocês, algumas das obras que criei (durante o longo desse texto) e o vídeo dos bastidores dessa experiência DESAFIADORA.

A série "Tinta sobre ela" realmente me toca. É totalmente íntima, desafiadora e um tanto quanto brutal.

A visceralidade é algo que realmente me encanta e utilizar a arte pra auto expressão é tocante. Não somente pra quem cria, mas pra quem também tá ali, junto, compartilha desses momentos de troca e também o resultado quando exposto, tocando tantas outras pessoas, que muitas das vezes, sentem o mesmo. A arte salva, a arte UNE e a arte LIBERTA! :)

Fiquem agora com o vídeo do making of dessa produção. Me contem qual a percepção que vocês tiveram dessa série, ou de algum retrato específico que você viu.

Um grande abraço pra vocês,

Mariana Montrazi. 




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